Pular para o conteúdo

Amanda Costa

Brasil deve adotar cautela entre EUA e Irã, parceiro do Brics

O Brasil deve adotar postura cautelosa em relação aos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, neste sábado (28). Esse comportamento é explicado por um cenário em que o governo brasileiro conduz negociações tarifárias com os americanos e tem nos iranianos um aliado que forma o Brics, grupo de nações do chamado Sul Global.
A avaliação é de especialistas em relações internacionais ouvidos pela Agência Brasil. Na manhã deste sábado, o governo brasileiro emitiu um comunicado em que condena a ofensiva e defende negociações como caminho para a paz. 
Negociação é a “posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região”, diz a nota do governo, divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores.
“O Brasil apela a todas as partes que respeitem o direito internacional e exerçam máxima contenção, de maneira a evitar a escalada de hostilidades e a assegurar a proteção de civis e da infraestrutura civil”, completa o comunicado.
Mesmo em meio a negociações sobre o futuro do programa nuclear iraniano, os Estados Unidos realizaram uma ofensiva militar contra alvos no território iraniano. Israel também executou ataques.
O Irã retaliou com o lançamento de mísseis a países vizinhos que ostentam bases americanas. O país do Oriente Médio sustenta que o desenvolvimento de tecnologia nuclear tem fins pacíficos.
O professor Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), defende que o Ministério das Relações Exteriores brasileiro tem que encontrar uma “posição intermediária” entre Irã e Estados Unidos.
“Como o Irã agora é um membro dos Brics, o Brasil se coloca em uma posição difícil de criar um tipo de posição em que não seja abertamente contra o Irã e não seja abertamente contra os Estados Unidos, dado que o Brasil tem essa negociação com os Estados Unidos”, avalia.
Há a expectativa de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontre com Trump nos Estados Unidos, no fim de março.
A negociação a qual se refere Feliciano trata de tarifas de importação impostas em agosto passado pelo governo Trump. O Brasil chegou a ter produtos tarifados em até 50%
Ao elevar taxas sobre produtos importados, o governo dos Estados Unidos justifica que pretende proteger a economia americana, já que, com taxação, os americanos tenderiam a fabricar produtos localmente em vez de adquiri-los no exterior. 
Desde então, os governos brasileiro e americano negociam formas de buscar acordos para a parceria comercial. Houve retiradas de produtos da lista de tarifas.
No dia 20 de fevereiro, uma decisão da Suprema Corte dos EUA derrubou a decisão de Trump, que reagiu impondo tarifa de 10% a diversos países. 
O professor titular aposentado de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Williams Gonçalves destaca que a posição de cautela que precisa ser adotada pelo Brasil tem a ver com o fato de o país ser fundador do Brics, grupo que reúne 11 países-membros e 10 países-parceiros que se definem como Sul Global.
A Rússia e a China, dois importantes aliados do Irã, também são fundadores do Brics, em 2006. O Irã passou a ser país-membro em 2024.
“O Brasil tem uma relação com a Rússia e com a China forte e tem uma relação não tão forte, mas tem uma relação com Irã”, assinala o professor.
“Estão todos [países] dentro do mesmo barco do Brics, todos engajados, pelo menos teoricamente, na ideia de mudança da ordem internacional”, enfatiza Gonçalves.
Williams Gonçalves lembra que o Brasil tem adotado cautela também em virtude das ações de Trump na Venezuela.
“O regime de Trump foi lá e sequestrou um presidente da República na América do Sul, nosso vizinho”, cita, em referência à captura de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro.
“Nossa posição tem sido de muita cautela, procurando assim não fazer nada que aparente ser uma provocação ou uma reação forte”, afirma.
No entanto, Gonçalves entende que o desdobrar dos acontecimentos pode exigir posições mais fortes do Brasil. Ele cita a pretensão declarada dos Estados Unidos de mudar o regime no Irã.
“O Brasil, que sempre defendeu a autodeterminação dos povos, que sempre defendeu o princípio da não ingerência, não pode agora apoiar governos que intervenham em outros estados com a finalidade de mudar o sistema político escolhido pelo seu povo”, avalia.
O pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV) Leonardo Paz Neves acredita que o Brasil pode ser afetado de forma limitada pelo conflito no Oriente Médio.
Segundo ele, o posicionamento do governo foi “protocolar”, criticando o ataque.
“Não acho que o presidente Lula e o Brasil vão se engajar muito nesse conflito. Está muito longe do Brasil, não tem grandes interesses específicos do Brasil nesse processo. Obviamente o Brasil está em uma tentativa muito prolongada de negociação com os Estados Unidos”, avalia.
Ao comentar a possível viagem de Lula aos Estados Unidos em março, o pesquisador diz acreditar que o país deve manter posição “crítica institucional”, chamando Irã e Estados Unidos para voltarem à mesa de negociação.
“Mas sem se envolver muito fortemente porque tem muito a perder”, ressalta.
“Ele [Lula]sabe como o Trump funciona, e antagonizar com o Trump agora é atrair uma atenção negativa para o Brasil muito grande”, justifica.
Para Leonardo Paz Neves, os efeitos econômicos que o Brasil pode sofrer com a escalada do conflito passam pelo petróleo, que pode subir de preço
“O que gera inflação. Toda vez que o petróleo sobe ─ o petróleo é base de cadeia ─ então impacta em diversos setores”.
Outro reflexo, acrescenta o pesquisador, é no comércio internacional com o Irã.
“O Irã é um importador importante dos produtos brasileiros, especialmente a soja, o milho e alguma coisa de proteína”, lista.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, em 2025, a corrente de comércio Brasil-Irã ficou em US$ 3 bilhões, o equivalente a mais de R$ 15 bilhões. O Brasil tem superávit na relação comercial, tendo exportado US$ 2,9 bilhões e importado US$ 85 milhões.
O Irã foi no ano passado o 31º país para os quais o Brasil mais exportou. O principal produto de exportação é o milho não moído, que responde por 67,9% do valor dos embarques. Em seguida aparece a soja, com 19,3%.
“Se o conflito escalar muito e tiver o Irã cercado pela marinha americana, vai ser um problema mandar a exportação brasileira para lá. Vai ter alguns setores aqui no Brasil que vão sofrer um pouco, perder um importante comprador”, diz.

source

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email
SOBRE MIM
Amanda Costa
Natural do Ceará com 40+ apaixonada pelo Rio de Janeiro e carioca de coração. Defensora de causas sociais e políticas de grande relevância para o nosso Brasil.
#vamosquerer um futuro melhor.
siga amanda costa nas redes sociais
LUTA PELA DEMOCRACIA EM SP
Em cima da hora: R7 Rio de Janeiro

    No feed items found.